terça-feira, 6 de agosto de 2013

Abri a arca e procurei-te no seu interior.

Abri a arca e procurei-te no seu interior. Era uma arca antiga, bem, mais ou menos, com tantos anos quanto os meus. Vasculhei todas as folhas guardadas, busquei-te. Encontrei papéis sobre tudo quanto seja possível imaginar: palavras indecifráveis de médico, conquistas profissionais, derrotas pessoais, documentos oficiais de ganhos e perdas. E então, numa secção bem delimitada, achei-te.

Abri a arca e procurei-te no seu interior. Nesta guardava todas as cartas que te escrevi. O seu conteúdo e forma cresciam comigo. Era evidente a transformação de gatafunhos de criança para letra muito cuidada e redonda, que depois se tornou apressada e mais desordenada. No início eras uma espécie de confidente, mas depois também evoluíste e tornaste-te a luz dos meus dias. Folheei cartas escritas antes mesmo de aprender a escrever, em que te contava como a professora me fazia seguir o ponteado e formar as letras vezes sem conta. Também te falei nas mudanças de escola e nas chegadas e partidas de familiares, nas mudanças estranhas que me aconteciam e nos sonhos que me surgiam. Até que te saudava, quer dizer, sentia saudades (porque será que saudade e saudar são parentes?) e te escrevia do topo de uma mente que te esperava, cavalgando um cavalo branco e atravessando o nevoeiro.

Abri a arca e procurei-te no seu interior. Dizem que a esperança é a última a morrer, mas até essa já cá não está. Tinha intenção de rasgar todas as cartas que te escrevi, pois tinha agora a certeza que nunca seriam entregues e de cada vez que tropeçava nelas ou me decidia a escrever outra, a melancolia atingia-me. Com isto pretendia libertar-me do peso que a tua não existência me faz. Ao percorrer as folhas que esta arca guarda, recordo-me de tudo quanto passei. A minha vida confunde-se com a tua falta dela. És o melhor do que eu não tive. És o meu sonho inatingível, mas que sempre me salta ao pensamento. És a perfeição que todos procuram, ainda que sabendo que nunca será possível. És o impossível, o limite derradeiro da Humanidade, a definição de utopia.

Abri a arca e procurei-te no seu interior. Tinha intenção de destruir tudo o que passei contigo, tentando libertar-me de ti. Olhei para a secção vazia das cartas que te escrevi e tentei convencer-me que era um desperdício de espaço. Depois de ler as tuas cartas, guardei-te na tua secção. A utopia é saudável e não me consigo separar de ti.

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