terça-feira, 23 de abril de 2013

Boa noite, 42.

Boa noite, 42.

Desculpa incomodar. Espero que não te importes de... Sim? Posso? Bem, é que tenho um sufoco e... e não é agradável. Não sei se já o sentiste; é algo que nos impede de respirar que nos ocupa totalmente a mente que te apanha no âmago e nunca mais te larga. Não sei se já o sentiste?, mas espero sentidamente que não.

Não te perguntei... Parvo. Como estás? Por vezes, falo contigo como se fosses uma exilada, em perigo, ou uma emigrante, desolada. Não é por mal apenas... oh, apenas não ouço nada de ti e preocupo-me. Muito. Não penses bem de mim por o fazer, porque é egoísmo. O preocupar-me contigo, é egoísmo. Se metade de mim és tu, como posso dormir sabendo que me podes destruir a meio? Sei que não o farias de propósito; ainda assim, há... há distrações. Por favor, tem cuidado. És a minha melhor metade - não a trates mal. Cuida de ti e se puder ajudar diz-me. Não me respondes?... Ora, não ouço nada de ti e as que correm... como é?... as más notícias correm depressa; só espero que seja bom sinal.

Voltando ao que dizia. Desculpa incomodar, mas... sabes aquela sensação de estares constantemente enjoada?, com uma pontada logo abaixo das costelas? e não estares de forma alguma confortável? Espero sentidamente que não. 
É assim que me encontro e sei que se falar contigo melhoro. Não percebo como o fazes, é verdade, mas funcionamos assim. Sento-me no chão, falo contigo sem que me respondas, sem que me olhes, sem saber se me ouves sequer e melhoro. Por isso, desculpa incomodar, mas preciso que me ajudes outra vez.
Deixei de dormir e emagreci a olhos vistos. Fico aborrecido muito facilmente e quando olho ao espelho já quase não me reconheço. É trabalho, é a idade, é o crescer, é normal, é doença!, é manha..., é o tempo, é uma fase. Toda a gente parece saber o que é, mas não como curo. Se é trabalho, descansar ajudaria. Se é a idade, com o tempo passaria. Não. És tu, 42. É a tua falta, é as saudades do que nunca senti, é o procurar do que nunca vi, é a perda do que nunca tive. É isso. E como curo? Desculpa incomodar, mas podes vir ter comigo? Pelo menos que estejas bem; faz-me esse favor.

Mais uma noite insonienta. É tarde e não tenho sono. Nem desperto estou, tudo menos isso. Limbo. Acho que cansei. Acho que é isso. Cansei de ver os outros terem os seus 42 saberem para onde vão terem objetivos e cumpri-los, cansei de ficar para trás de começar atrasado de correr de pés atados e. Cansei. Lembraste de quando éramos crianças (alguma vez o foste?) e víamos aqueles desenhos-animados em que a raposa corria até um precipício e esperneava sem chão por baixo, até que se apercebia disso e olhava fixamente para nós, atónito? Assim me sinto: constantemente a espernear e a olhar fixamente, esperando a queda que teima em não chegar.
Sei que amanhã "acordarei" com outro pensamento. Embora me arraste, sei que lentamente olharei o Mundo (pelo menos a 45º) e mais um dia passará. Talvez até jante, talvez até durma, talvez até respire. E no dia seguinte? E no outro? Desculpa incomodar, mas podes vir ter comigo?

Trata bem de nós, 42. Não nos deixes definhar. No dia em que juntarmos as metades tudo será melhor, bem sei. Até lá será complicado viver só com meio eu (e, ainda por cima, a pior metade). Se puderes passa por cá ou, no mínimo, confirma-me como estás. Manda um pombo-correio, faz sinais luminosos com os olhos, qualquer coisa - sempre me tiravas uma preocupação.

Até breve.
Boa noite, 42.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Naquele segundo foste cega. / 42

Naquele segundo foste cega. Naquele segundo, há uns quatro atrás, imaginei-te cega. E como até agora nada mais és que a minha imaginação, FOSTE cega.

Estavas sentada no chão de uma sala, com os joelhos encostados ao peito e uma almofada sobre estes, onde escondias a cara. Estarias a dormir? Era uma forma estranha, mas é possível; afinal, eu não te conhecia. Hum, não. Suavemente, cheguei-me a ti e coloquei-te uma mão no ombro. Murmurei o teu nome. Não te moveste. Murmurei novamente. Não te moveste. Depois gemes:
- Não consigo. Já tentei tudo, já fiz tudo e não consigo.
Não sabia do que falavas, mas não to disse. Os nossos problemas são sempre os maiores do Mundo, porque são os que temos que ser nós a resolver e eu, egoísta, tinha a cabeça pesada comigo próprio. Se fosse agora teria prestado muito mais atenção, muito mais! Arrependo-me...
Encostei-me a ti. Pus o meu braço em torno do teu pescoço e encostei a minha orelha à tua nuca.
- Não vale a pena continuar; já sei que não sou capaz!
Não sei o que te respondi. Saiu-me algo diretamente pela boca, sem intervenção do cérebro (demasiado ocupado na altura). Pela primeira vez levantaste a testa da almofada e tinhas um sorriso triste, com lágrimas deslizando até ao teu queixo. O que quer que tenha dito surtiu efeito, porque estavas mesmo a sorrir. Apertei-te gentilmente o nariz e nesse momento tenho a certeza que a Terra estremeceu e uma luz celestial atravessou o Universo e a nossa janela e te iluminou. É impossível algo ser tão belo e tão espontâneo como a tua cara naquele momento. A testa ligeiramente franzida, o cabelo a agraciar as orelhas, as bochechas avermelhadas pelo tempo que estiveste com a cara na almofada, o queixo tremendo, denunciando o teu esforço por conter a queda de mais lágrimas. Impossível.

Sequei algumas lágrimas com o polegar e senti as tuas maçãs do rosto quentes e macias. Beijei a tua testa, o teu nariz, os teus olhos. Ainda ouvia o cantar dos anjos e passei as mãos pelas tuas costas, à procura das tuas grandes asas brancas - teriam que lá estar. As tuas mãos viam-me a cara, gentilmente, apenas com dois dedos. Sentados no chão daquela qualquer sala qualquer, num só segundo, descobri-mo-nos após eternidades sem nos conhecer-mos. Quando, finalmente, te olhei nos olhos, fixamente, e te abri as persianas da alma, soube que eras impossível. O que lá vi fui eu, sentado no chão de uma qualquer sala qualquer, olhando fixamente os teus olhos, abrindo as persianas da tua alma e vendo-me sentado no chão de uma qualq.
Foi um segundo, aquele em que te vi, te toquei, te beijei, te conheci, te desbravei, para logo descobrir que não eras senão desejo meu. Gostava de ver com as mãos, como tu viste, e continuar a navegar no teu cabelo, no teu pescoço, sem saber que tu eras ilusão (ou serei eu?). Desvanecemo-nos.

Tu, o meu 42, a minha resposta à pergunta derradeira, não és a pessoa com quem vivi um segundo. A minha procura por ti, minha razão de viver, saiu defraudada. Sei que estás aí, a ler-me ou a ouvir alguém fazê-lo e sei que me vais deixar encontrar-te um dia. Um dia, irei convencer-te que és a pessoa mais perfeita que pisou o Mundo e que todos os teus defeitos apenas existem para que nós, comuns mortais, dêmos verdadeiro valor às tuas qualidades e não as esqueçamos. Um dia, quando te encontrar, irei fazer tudo para que tenhas o que mereces e morrerei desgostoso por não o conseguir. Um dia, ouvir-te-ei sorrir e saberei que esse será o melhor dia da minha vida, graças a isso. Um dia, acharei a minha razão de viver. Um dia achar-te-ei.
"Someday, and that day may never come".

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Não tenho nada para te dizer.

Não tenho nada para te dizer. Simplesmente preciso de falar contigo.
Estou sentado de perna cruzada, com o computador entre os joelhos. O calor que dele sai faz lembrar os meus braços que embora seja Primavera, as noites não o parecem. Espero que estejas mais confortável que eu.

Sonhei contigo a noite passada. Raramente me lembro dos meus sonhos, mas este foi um desses raros casos. Estávamos debruçados à beira-rio, numa ponte iluminada; não sei qual rio e muito menos sei qual ponte. Abraçava-te. Estavas de costas para mim e eu envolvia-te com os meus braços. Encolhias-te e eu abraçava-te.
Agora que penso: porque não me lembro de uma única característica tua?! Mais uma vez sinto que me escapas entre os dedos... Tive-te nos meus braços e não faço ideia de como és. Escapas-me pelos dedos, mas eu abraçava-te.
Lembro-me de pensar se não era perigoso, estar assim numa ponte, a meio da noite - talvez por isso te encolhias. Precisava de te fazer sentir protegida, logo não podia duvidar da nossa segurança, mesmo que duvidasse. Não sei se pousava o meu queixo na tua nuca, mas gosto de pensar que sim. Não sei se cheiravas a um perfume doce misturado com um café bebido recentemente, mas gosto de pensar que sim. Não sei se te sentias segura graças ao meu abraço apertado, mas gosto de pensar que sim.
Do rio, pouco via. A ponte era alta e estava relativamente escuro. Luzes fugazes saltavam de ambas as margens e perdiam-se na água. Se a tranquilidade fosse sonora tínhamo-la ouvido. Não posso afirmar, mas penso que passavam carros por trás de nós... Recordo-me de ouvir uns ruídos; talvez não.
A única certeza que tenho, o momento pelo qual punha as mãos no fogo em como aconteceu é aquele em que falo contigo. Longos minutos de um saboroso silêncio, que me fazia unir a ti no verdadeiro sentido da palavra, como se de osmose se tratasse. Esta reconfortante falta de som foi quebrada por mim. Obrigado, disse-te. Encostei-me ao teu ouvido, onde quer que ele estivesse e segredei, com medo de te assustar ou que o silêncio não voltasse. Obrigado, disse-te. Não me falaste. A tua voz, como todo o teu corpo não ficou exposta. No entanto, respondeste-me direto ao pensamento, por telepatia ou o quer que seja. Um sorriso terno e enternecedor foi o que me vibrou na cabeça, sem saber de onde tinha vindo. E acordei.

Não tenho nada para te dizer. O que te contei foi para estar um pouco contigo. Embora seja verdade, penso que não serve de nada contar-te sonhos meus, tanto os acordados quanto os dormidos. Ainda assim, serviu o propósito de me levar palavras.

Não tenho nada para te dizer. Simplesmente preciso de falar contigo. Raramente me lembro dos meus sonhos, mas sonhei contigo a noite passada. Encolhias-te e eu abraçava-te. Sonhasse contigo todos os dias e teria narcolepsia; sonhasse contigo dia nenhum e daria em louco; sonho contigo algumas vezes e preciso de te escrever, mesmo que não tenha nada para te dizer.

sábado, 6 de abril de 2013

Hoje a minha cabeça tiquetaqueia.

Hoje a minha cabeça tiquetaqueia. Enquanto desço as ruas da cidade, em ziguezagues, a minha cabeça. Tique. Taque.

São horas frias, com o vento e a lua já levantados. O passo não muito rápido mas firme mantém as minhas pernas quentes, mas as maçãs do rosto já protestam. O arrancar dos carros está algo camuflado pela guitarra portuguesa que me chora aos ouvidos. As luzes dos faróis dão vida às minhas sombras. Poucas pessoas cruzam a rua. Tique. Taque. Onze badaladas no sino da igreja.

As luzes que lusco-fuscam as lojas do centro apenas querem iludir uma presença. Vermelho; espero. Verde na passadeira, passo a passo. Penso que me perdi. Lembro-me deste muro, desta pintura. Tenho um metrónomo na cabeça que me cronometra os passos. Tique. Taque. Perdi-me, não sei para onde vou. Na verdade, este é o sentido certo. Como posso estar no caminho errado se não sei onde quero ir? Pois, como?

Não sinto o nariz. Estou no Jardim e cá está a macieira. Não tenho fome, obrigado. O que queria mesmo era que surgisses de repente e me apertasses o cotovelo, sem eu contar. Voltava-me num taque. Em meio até; voltava-me tão rápido que descoordenaria o. Metrónomo e jamais recu. Peraria o sincronismo. Voltava-me para ti e quando te visse saberia que tinha, finalmente, chegado. Mas não. Saio sem nunca ter entrado. O muro pintado, vermelho espero, verde na passadeira. Tento chegar a casa. Tique.

Boa noite. Entro no autocarro e sento-me na terceira fila. Ninguém atrás, à frente apenas o timoneiro. Mais um lamento termina nos meus ouvidos, mais um lamento recomeça. Candeeiros de rua, mantêm-me acordado. Antes dormisse. Imagino o que seria se encostasses a tua cabeça no meu peito. Sem falarmos, sem pensarmos. Apenas a tua cabeça no meu peito, a tua testa no meu pescoço, a minha mão no teu pulso. Toque.

Saudades tuas. Saudades. Saudades.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Parei numa mesa de esplanada.

Parei numa mesa de esplanada. Sentei-me, ocupado entre folhas, um café e pouca vontade. Todas as pessoas que passavam à minha frente recebiam o meu olhar inquiridor. Por cada uma delas levantei os olhos tentando reconhecer-te. Como és?

Quando percebi que, mais uma vez, não eras tu que cruzavas o meu horizonte, baixava os olhos, envergonhado. Repetidamente os meus olhos subiram esperançosos e desceram cabisbaixos. A determinada altura tentava-me convencer que não irias passar por ali - Se não foi desta vez, porque seria agora diferente. Mas sempre olhava sempre. Quando vens?

Horas depois, com pouco proveito retirado, levantei-me. Não consegui evitar um último olhar em redor. Porquê? Envergonhado, novamente. Estúpido... Mas não consegui evitar. Quem sabe se não passaste sem eu te ver? Se soubesse o teu nome facilmente te chamaria, mas assim... Quem és?

Saído, percorro corredores com uma réstia de esperança. Talvez descubra por onde te moves ou onde descansas ou onde te alimentas (partindo do princípio que te moves e descansas e alimentas). Onde estás?

Quando te vir tenho a certeza que te reconhecerei. Irei olhar-te nos olhos(?) e saber que és tu. E aí todas as perguntas que me enchem hoje - porque todo eu sou perguntas - encontrarão respostas. Como és? Quando vens? Quem és? Onde estás? Nesse dia, saberei. Nesse dia, serei. Até lá, envergonho-me.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Fim

Hoje procuro-te sem saber se te vou encontrar. Há dias em que te vejo, a correr, mas não sei se és tu. Ainda que não te conheça, tenho quase a certeza que és tu. Mas não sei se és tu.
Peço-te que não corras. Chove lá fora e acredito que seja desagradável (sei que é desagradável) ficar com os pés molhados e que detestas o pescoço enregelado e que constipas facilmente. Embora saiba tudo isso, peço-te que não corras.
Se corres penso que foges. Se de mim foges fico triste. Se de outro foges fico preocupado. Não corras. Leva guarda-chuva e agasalha-te bem. Não corras. Pelo menos, não por mim.
Procuro-te sem saber se te vou encontrar. Há dias em que te vejo, a correr, estendo a mão e não te consigo tocar. Como vais rápido! Nesses dias chego a casa a pensar que talvez não fosses tu. Afinal não sei quem és, mas amanhã procurar-te-ei novamente.

Não é fácil encontrar um desconhecido. Ajuda-me. Se leres isto, olha para trás. Ah, e não corras, porque se corres penso que foges.