Boa noite, 42.
Desculpa incomodar. Espero que não te importes de... Sim? Posso? Bem, é que tenho um sufoco e... e não é agradável. Não sei se já o sentiste; é algo que nos impede de respirar que nos ocupa totalmente a mente que te apanha no âmago e nunca mais te larga. Não sei se já o sentiste?, mas espero sentidamente que não.
Não te perguntei... Parvo. Como estás? Por vezes, falo contigo como se fosses uma exilada, em perigo, ou uma emigrante, desolada. Não é por mal apenas... oh, apenas não ouço nada de ti e preocupo-me. Muito. Não penses bem de mim por o fazer, porque é egoísmo. O preocupar-me contigo, é egoísmo. Se metade de mim és tu, como posso dormir sabendo que me podes destruir a meio? Sei que não o farias de propósito; ainda assim, há... há distrações. Por favor, tem cuidado. És a minha melhor metade - não a trates mal. Cuida de ti e se puder ajudar diz-me. Não me respondes?... Ora, não ouço nada de ti e as que correm... como é?... as más notícias correm depressa; só espero que seja bom sinal.
Voltando ao que dizia. Desculpa incomodar, mas... sabes aquela sensação de estares constantemente enjoada?, com uma pontada logo abaixo das costelas? e não estares de forma alguma confortável? Espero sentidamente que não.
É assim que me encontro e sei que se falar contigo melhoro. Não percebo como o fazes, é verdade, mas funcionamos assim. Sento-me no chão, falo contigo sem que me respondas, sem que me olhes, sem saber se me ouves sequer e melhoro. Por isso, desculpa incomodar, mas preciso que me ajudes outra vez.
Deixei de dormir e emagreci a olhos vistos. Fico aborrecido muito facilmente e quando olho ao espelho já quase não me reconheço. É trabalho, é a idade, é o crescer, é normal, é doença!, é manha..., é o tempo, é uma fase. Toda a gente parece saber o que é, mas não como curo. Se é trabalho, descansar ajudaria. Se é a idade, com o tempo passaria. Não. És tu, 42. É a tua falta, é as saudades do que nunca senti, é o procurar do que nunca vi, é a perda do que nunca tive. É isso. E como curo? Desculpa incomodar, mas podes vir ter comigo? Pelo menos que estejas bem; faz-me esse favor.
Mais uma noite insonienta. É tarde e não tenho sono. Nem desperto estou, tudo menos isso. Limbo. Acho que cansei. Acho que é isso. Cansei de ver os outros terem os seus 42 saberem para onde vão terem objetivos e cumpri-los, cansei de ficar para trás de começar atrasado de correr de pés atados e. Cansei. Lembraste de quando éramos crianças (alguma vez o foste?) e víamos aqueles desenhos-animados em que a raposa corria até um precipício e esperneava sem chão por baixo, até que se apercebia disso e olhava fixamente para nós, atónito? Assim me sinto: constantemente a espernear e a olhar fixamente, esperando a queda que teima em não chegar.
Sei que amanhã "acordarei" com outro pensamento. Embora me arraste, sei que lentamente olharei o Mundo (pelo menos a 45º) e mais um dia passará. Talvez até jante, talvez até durma, talvez até respire. E no dia seguinte? E no outro? Desculpa incomodar, mas podes vir ter comigo?
Sei que amanhã "acordarei" com outro pensamento. Embora me arraste, sei que lentamente olharei o Mundo (pelo menos a 45º) e mais um dia passará. Talvez até jante, talvez até durma, talvez até respire. E no dia seguinte? E no outro? Desculpa incomodar, mas podes vir ter comigo?
Trata bem de nós, 42. Não nos deixes definhar. No dia em que juntarmos as metades tudo será melhor, bem sei. Até lá será complicado viver só com meio eu (e, ainda por cima, a pior metade). Se puderes passa por cá ou, no mínimo, confirma-me como estás. Manda um pombo-correio, faz sinais luminosos com os olhos, qualquer coisa - sempre me tiravas uma preocupação.
Até breve.
Boa noite, 42.
Até breve.
Boa noite, 42.