Abri a arca e procurei-te no seu
interior. Era uma arca antiga, bem, mais ou menos, com tantos anos quanto os
meus. Vasculhei todas as folhas guardadas, busquei-te. Encontrei papéis sobre
tudo quanto seja possível imaginar: palavras indecifráveis de médico, conquistas
profissionais, derrotas pessoais, documentos oficiais de ganhos e perdas. E
então, numa secção bem delimitada, achei-te.
Abri a arca e procurei-te no seu
interior. Nesta guardava todas as cartas que te escrevi. O seu conteúdo e forma
cresciam comigo. Era evidente a transformação de gatafunhos de criança para
letra muito cuidada e redonda, que depois se tornou apressada e mais
desordenada. No início eras uma espécie de confidente, mas depois também evoluíste
e tornaste-te a luz dos meus dias. Folheei cartas escritas antes mesmo de
aprender a escrever, em que te contava como a professora me fazia seguir o
ponteado e formar as letras vezes sem conta. Também te falei nas mudanças de
escola e nas chegadas e partidas de familiares, nas mudanças estranhas que me
aconteciam e nos sonhos que me surgiam. Até que te saudava, quer dizer, sentia
saudades (porque será que saudade e saudar são parentes?) e te escrevia do
topo de uma mente que te esperava, cavalgando um cavalo branco e atravessando o
nevoeiro.
Abri a arca e procurei-te no seu
interior. Dizem que a esperança é a última a morrer, mas até essa já cá não está.
Tinha intenção de rasgar todas as cartas que te escrevi, pois tinha agora a
certeza que nunca seriam entregues e de cada vez que tropeçava nelas ou me
decidia a escrever outra, a melancolia atingia-me. Com isto pretendia
libertar-me do peso que a tua não existência me faz. Ao percorrer as folhas que
esta arca guarda, recordo-me de tudo quanto passei. A minha vida confunde-se com
a tua falta dela. És o melhor do que eu não tive. És o meu sonho inatingível,
mas que sempre me salta ao pensamento. És a perfeição que todos procuram, ainda
que sabendo que nunca será possível. És o impossível, o limite derradeiro da
Humanidade, a definição de utopia.
Abri a arca e procurei-te no seu
interior. Tinha intenção de destruir tudo o que passei contigo, tentando
libertar-me de ti. Olhei para a secção vazia das cartas que te escrevi e tentei
convencer-me que era um desperdício de espaço. Depois de ler as tuas cartas,
guardei-te na tua secção. A utopia é
saudável e não me consigo separar de ti.