Hoje a minha cabeça tiquetaqueia. Enquanto desço as ruas da cidade, em ziguezagues, a minha cabeça. Tique. Taque.
São horas frias, com o vento e a lua já levantados. O passo não muito rápido mas firme mantém as minhas pernas quentes, mas as maçãs do rosto já protestam. O arrancar dos carros está algo camuflado pela guitarra portuguesa que me chora aos ouvidos. As luzes dos faróis dão vida às minhas sombras. Poucas pessoas cruzam a rua. Tique. Taque. Onze badaladas no sino da igreja.
As luzes que lusco-fuscam as lojas do centro apenas querem iludir uma presença. Vermelho; espero. Verde na passadeira, passo a passo. Penso que me perdi. Lembro-me deste muro, desta pintura. Tenho um metrónomo na cabeça que me cronometra os passos. Tique. Taque. Perdi-me, não sei para onde vou. Na verdade, este é o sentido certo. Como posso estar no caminho errado se não sei onde quero ir? Pois, como?
Não sinto o nariz. Estou no Jardim e cá está a macieira. Não tenho fome, obrigado. O que queria mesmo era que surgisses de repente e me apertasses o cotovelo, sem eu contar. Voltava-me num taque. Em meio até; voltava-me tão rápido que descoordenaria o. Metrónomo e jamais recu. Peraria o sincronismo. Voltava-me para ti e quando te visse saberia que tinha, finalmente, chegado. Mas não. Saio sem nunca ter entrado. O muro pintado, vermelho espero, verde na passadeira. Tento chegar a casa. Tique.
Boa noite. Entro no autocarro e sento-me na terceira fila. Ninguém atrás, à frente apenas o timoneiro. Mais um lamento termina nos meus ouvidos, mais um lamento recomeça. Candeeiros de rua, mantêm-me acordado. Antes dormisse. Imagino o que seria se encostasses a tua cabeça no meu peito. Sem falarmos, sem pensarmos. Apenas a tua cabeça no meu peito, a tua testa no meu pescoço, a minha mão no teu pulso. Toque.
Saudades tuas. Saudades. Saudades.
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