Naquele segundo foste cega. Naquele segundo, há uns quatro atrás, imaginei-te cega. E como até agora nada mais és que a minha imaginação, FOSTE cega.
Estavas sentada no chão de uma sala, com os joelhos encostados ao peito e uma almofada sobre estes, onde escondias a cara. Estarias a dormir? Era uma forma estranha, mas é possível; afinal, eu não te conhecia. Hum, não. Suavemente, cheguei-me a ti e coloquei-te uma mão no ombro. Murmurei o teu nome. Não te moveste. Murmurei novamente. Não te moveste. Depois gemes:
- Não consigo. Já tentei tudo, já fiz tudo e não consigo.
Não sabia do que falavas, mas não to disse. Os nossos problemas são sempre os maiores do Mundo, porque são os que temos que ser nós a resolver e eu, egoísta, tinha a cabeça pesada comigo próprio. Se fosse agora teria prestado muito mais atenção, muito mais! Arrependo-me...
Encostei-me a ti. Pus o meu braço em torno do teu pescoço e encostei a minha orelha à tua nuca.
- Não vale a pena continuar; já sei que não sou capaz!
Não sei o que te respondi. Saiu-me algo diretamente pela boca, sem intervenção do cérebro (demasiado ocupado na altura). Pela primeira vez levantaste a testa da almofada e tinhas um sorriso triste, com lágrimas deslizando até ao teu queixo. O que quer que tenha dito surtiu efeito, porque estavas mesmo a sorrir. Apertei-te gentilmente o nariz e nesse momento tenho a certeza que a Terra estremeceu e uma luz celestial atravessou o Universo e a nossa janela e te iluminou. É impossível algo ser tão belo e tão espontâneo como a tua cara naquele momento. A testa ligeiramente franzida, o cabelo a agraciar as orelhas, as bochechas avermelhadas pelo tempo que estiveste com a cara na almofada, o queixo tremendo, denunciando o teu esforço por conter a queda de mais lágrimas. Impossível.
Sequei algumas lágrimas com o polegar e senti as tuas maçãs do rosto quentes e macias. Beijei a tua testa, o teu nariz, os teus olhos. Ainda ouvia o cantar dos anjos e passei as mãos pelas tuas costas, à procura das tuas grandes asas brancas - teriam que lá estar. As tuas mãos viam-me a cara, gentilmente, apenas com dois dedos. Sentados no chão daquela qualquer sala qualquer, num só segundo, descobri-mo-nos após eternidades sem nos conhecer-mos. Quando, finalmente, te olhei nos olhos, fixamente, e te abri as persianas da alma, soube que eras impossível. O que lá vi fui eu, sentado no chão de uma qualquer sala qualquer, olhando fixamente os teus olhos, abrindo as persianas da tua alma e vendo-me sentado no chão de uma qualq.
Foi um segundo, aquele em que te vi, te toquei, te beijei, te conheci, te desbravei, para logo descobrir que não eras senão desejo meu. Gostava de ver com as mãos, como tu viste, e continuar a navegar no teu cabelo, no teu pescoço, sem saber que tu eras ilusão (ou serei eu?). Desvanecemo-nos.
Tu, o meu 42, a minha resposta à pergunta derradeira, não és a pessoa com quem vivi um segundo. A minha procura por ti, minha razão de viver, saiu defraudada. Sei que estás aí, a ler-me ou a ouvir alguém fazê-lo e sei que me vais deixar encontrar-te um dia. Um dia, irei convencer-te que és a pessoa mais perfeita que pisou o Mundo e que todos os teus defeitos apenas existem para que nós, comuns mortais, dêmos verdadeiro valor às tuas qualidades e não as esqueçamos. Um dia, quando te encontrar, irei fazer tudo para que tenhas o que mereces e morrerei desgostoso por não o conseguir. Um dia, ouvir-te-ei sorrir e saberei que esse será o melhor dia da minha vida, graças a isso. Um dia, acharei a minha razão de viver. Um dia achar-te-ei.
"Someday, and that day may never come".
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